A política brasileira vive um momento em que o debate
deixou de ser disputa de ideias para se transformar, muitas vezes, em guerra de
torcidas. E o episódio recente envolvendo a aprovação da quebra de sigilos
bancário, fiscal e telemático de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, escancarou isso de forma preocupante.
A decisão, que deveria ser tratada dentro da normalidade institucional,
afinal, investigar faz parte do Estado Democrático de Direito, rapidamente
virou combustível para um espetáculo lamentável. O que se viu na comissão da
Câmara foi um cenário de gritos, acusações, empurrões, quase vias de fato.
Parlamentares que deveriam dar exemplo protagonizando cenas que mais parecem
arquibancada de estádio do que ambiente legislativo.
E é aqui que mora o problema central: quando representantes eleitos
transformam divergência em confronto físico e moral, a mensagem que chega à
sociedade é clara “vale tudo”. Se eles fazem, por que eu não posso fazer? A
polarização deixa de ser apenas ideológica e passa a ser comportamental. A
agressividade institucionaliza-se.
Enquanto isso, as redes sociais foram inundadas por uma avalanche de
conteúdos. Vídeos antigos do ex-presidente Jair Bolsonaro dizendo que demitiria
qualquer ministro que investigasse seus filhos. Declarações de Sergio Moro
afirmando ter sido impedido de avançar em investigações. E, por outro lado,
falas do próprio Lula defendendo que, se o filho estiver errado, deve pagar
como qualquer outro cidadão.
O problema não é recuperar falas para contextualizar. O problema é quando
isso vira munição emocional, recortada, descontextualizada, usada para
inflamar. Em minutos, a timeline se transforma num tribunal popular, onde
ninguém quer investigar, todos querem condenar ou absolver previamente,
dependendo do lado que defendem.
A polarização extrema corrói três pilares essenciais: a presunção de
inocência, a confiança nas instituições e a capacidade de diálogo. Quando tudo
vira “meu lado contra o seu”, perde-se o compromisso com a verdade e abraça-se
a conveniência.
Investigar não é perseguir. Defender investigação não é atacar governo.
Cobrar isonomia não é ser oposicionista. E exigir respeito institucional não é
proteger culpados. Mas, num ambiente radicalizado, essas distinções
desaparecem.
A democracia não morre apenas com golpes. Ela se enfraquece quando o
debate público vira espetáculo de ódio e quando representantes eleitos trocam
argumentos por agressões.
Se queremos um país institucionalmente forte, precisamos começar por algo
básico: divergência não é guerra. Investigação não é torcida. E política não
pode ser palco de violência, nem física, nem moral.
Por Joyce Moura – jornalista/O Mossoroensse
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