A investigação da Operação Mederi avança sobre o suposto
esquema de desvio de recursos na saúde de Mossoró e coloca no centro das
suspeitas uma mulher identificada nas escutas como “Fátima”.
Documentos obtidos com exclusividade pelo jornalista Dinarte
Assunção revelam que, para a Polícia Federal (PF), há indícios consistentes de
que ela teria sido beneficiária de 10% das propinas pagas em contratos com a
Prefeitura de Mossoró.
Segundo os autos, o nome surge de forma explícita em diálogos
captados por escuta ambiental no escritório da empresa DISMED Distribuidora de
Medicamentos. Nas conversas, investigados detalham a divisão de valores
provenientes de contratos públicos e mencionam percentuais destinados a agentes
específicos.
A apuração indica que a referência a “Fátima” deixou de ser
genérica ao longo da investigação. A partir do cruzamento de informações, os
policiais federais passaram a trabalhar com a hipótese de que se trata de uma
servidora comissionada do Município de Mossoró que também atua no setor de
eventos.
Dinheiro sacado e
repasses em espécie
A análise financeira conduzida pela Polícia Federal reforça a
suspeita de pagamentos em dinheiro vivo. Entre os valores creditados à DISMED pela
Prefeitura de Mossoró, incluindo o Fundo Municipal de Saúde, o montante chegou
a R$ 3.332.710,27.
Com base nos diálogos interceptados, nos quais se menciona a
retenção de 25% para comissões ilícitas, o valor estimado de propina apenas nos
contratos com Mossoró alcançaria cerca de R$ 833 mil. Desse total, 10%
corresponderiam a aproximadamente R$ 333 mil atribuídos à pessoa identificada
como “Fátima”.
Os investigadores também identificaram que a empresa realizou
R$ 2.210.000,00 em saques em espécie, distribuídos em 70 operações. O padrão
descrito no relatório aponta que os saques ocorriam logo após os créditos das
prefeituras, muitas vezes no mesmo dia ou em datas imediatamente posteriores, o
que, segundo a Polícia Federal, é compatível com a narrativa de repasse de
propinas.
A matemática revelada
nas escutas
Os detalhes do esquema aparecem em conversas entre sócios da
empresa. Em um dos trechos analisados, um dos investigados explica que, em um
contrato de R$ 500 mil, metade seria entregue em mercadoria a preço de custo e,
da outra metade, 25% seriam destinados a pagamentos ilícitos.
Em diálogo posterior, os nomes passam a ser citados
diretamente. Um dos sócios afirma que, de determinado valor, 10% seriam
destinados a “Fátima” e 15% a “Allyson”. A PF considera muito provável que a
menção a “Allyson” faça referência ao prefeito Allyson Leandro Bezerra Silva.
Antes disso, os investigados utilizavam expressões vagas como
“o homem” e “disso aí”. A identificação nominal marcou, para os investigadores,
um ponto de virada na apuração.
A pista do show e a
empresária
Uma frase dita em meio à discussão sobre preços de
medicamentos chamou a atenção dos policiais. Ao comentar a necessidade de
superfaturamento para garantir pagamentos, um dos investigados afirmou que “Gustavo
Lima não canta música não”, em referência ao cantor Gusttavo Lima.
Para a Polícia Federal, a declaração sugere que a realização
de shows em Mossoró dependeria do repasse das comissões ilícitas. A partir
dessa pista, os investigadores cruzaram dados de pessoas ligadas à organização
de eventos na cidade que também tivessem o nome “Fátima”.
Nesse contexto, foi identificada uma mulher que abriu empresa
voltada à realização de eventos em 2022 e, posteriormente, assumiu cargo
comissionado na Prefeitura de Mossoró. O relatório aponta que há indicativos de
que ela seja a destinatária dos 10%, embora ressalte a necessidade de
diligências complementares para confirmação definitiva.
Investigação em
andamento
Nos documentos, a PF registra que a qualificação precisa da
pessoa mencionada como “Fátima” ainda depende de novas etapas investigativas.
Mesmo assim, os elementos reunidos até agora são descritos como robustos.
A trilha reconstruída pelos investigadores começa em diálogos
cifrados, passa pela menção nominal nas escutas e ganha força com a referência
a eventos musicais na cidade. O cruzamento de dados financeiros e funcionais
estreitou o foco sobre a servidora.
A Operação Mederi segue em curso, sob condução da PF, e pode
trazer novos desdobramentos sobre o suposto esquema de corrupção na saúde
pública de Mossoró.
Fonte: Blog do Dina.
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