Documentos da
Operação Mederi, que investiga um esquema de corrupção na saúde de Mossoró,
mostram que a Polícia Federal incluiu duas servidoras da prefeitura em sua
análise financeira após detectar transferências que somam R$ 530 mil. Os
valores partiram diretamente da empresa DISMED e de uma conta pessoal usada
para lavagem de dinheiro, segundo a PF.
No relatório, os
investigadores explicam a metodologia: cruzar os dados de pessoas que receberam
dinheiro dos investigados com as bases de dados de servidores públicos,
“visando detectar vínculos entre os investigados e possíveis representantes da
Administração Pública direta, especialmente na esfera municipal”. Foi nesse
cruzamento que os nomes de Inez e Clívia surgiram.
O Blog do Dina
procurou as duas servidoras para que pudessem apresentar suas versões dos
fatos. Um confirmou uma transação imobiliária, a outra negou ter recebido
dinheiro.
As citadas nesta
reportagem não aparecem como investigadas especificamente no conjunto de dados
que obtivemos da Operação Mederi, que não refletem a totalidade da
investigação, que segue em andamento.
O Terreno de R$
100 mil e os R$ 430 mil
O primeiro caso
envolve a servidora Clívia Corina Lima Lobo Maia. A PF a identificou como a
segunda maior destinatária de recursos da conta de Rayca Fernandes (filha menor
de idade de Oseas Monthalggan), que, segundo os investigadores, era usada para
lavagem de dinheiro. Clívia recebeu R$ 430.000,00 em quatro transferências
entre 11 e 17 de março de 2022.
Em contato
telefônico com o Blog, Clívia afirmou que o valor se refere à venda de um
imóvel para Oseas. No entanto, um documento do COAF (Conselho de Controle de
Atividades Financeiras) anexado ao inquérito mostra uma outra realidade:
- O que foi vendido: um terreno urbano de 360 m², não uma casa.
- Valor declarado: a operação foi registrada em cartório com o valor de R$ 100.000,00.
- Data do registro em cartório: 18 de março de 2022.
- Compradores: Oseas Monthalggan e sua esposa, Roberta Ferreira Praxedes Costa.
Confrontada com
a divergência de R$ 330 mil entre o valor recebido e o valor declarado, e com o
fato de o dinheiro ter vindo da conta da filha de Oseas, Clívia inicialmente se
prontificou a apresentar os documentos que comprovariam a legalidade da
transação de R$ 430 mil.
Horas depois, em
novo contato, a servidora mudou de postura. Disse que possuía toda a
documentação, mas que só a apresentaria se fosse intimada pela Polícia Federal,
recusando-se a mostrá-la à reportagem para esclarecer os fatos. O Blog do Dina
insistiu em dispor da documentação para descartá-la da reportagem e não expor
seu nome, mas entendeu que o interesse público da divergência de recursos não
comprovados sobrepõe a preservação de sua identidade.
Embora a PF a
qualifique como servidora do Gabinete do Prefeito, uma checagem no Portal da
Transparência de Mossoró no ano passado mostrou que Clívia estava lotada na
Secretaria de Educação, em uma Unidade de Educação Infantil, no cargo de
Auxiliar de Apoio Operacional, com salário líquido de R$ 1.725,00 por mês. A
informação confirma a versão que ela deu na chamada, de que trabalha “em
escola”.
Elo com
Investigado
O Blog também
indagou Clívia a respeito de elo com Almir Mariano após localizar um estudo
científico em que ambos aparecem como co-autores em 2014, documentando algum
tipo de relação de uma década. Clívia confirmou o vínculo afirmando que Almir
foi seu professor. Ela afirmou ao blog que não tem relação de proximidade com
nenhum dos principais alvos da Operação Mederi.
Para a PF, Almir
não é coadjuvante. Ele assumiu a Secretaria de Saúde em fevereiro de 2025 e,
segundo os autos, garantiu a “continuidade das condições administrativas
necessárias” para o funcionamento do esquema.
Na prática, isso significou homologar licitações milionárias vencidas pela DISMED (como o Pregão 17/2024, de mais de R$ 11 milhões), assinar ordens de pagamento como ordenador de despesas do Fundo Municipal de Saúde, e manter nos cargos a mesma gestora de contratos e o mesmo fiscal da gestão anterior — pessoas que a PF aponta como responsáveis por atestar o recebimento falso de medicamentos.
Almir foi alvo
direto da Operação Mederi: a Justiça autorizou a quebra de sigilo telemático
dos seus dados e a PF cumpriu mandado de busca em seu apartamento em Natal,
onde foram apreendidos celular e notebook e R$ 57,7 mil em espécie.
O Caso Inez: R$
100 mil e a “Pessoa Errada”
A análise
financeira da PF aponta que Inez Martins de Medeiros Viana recebeu uma
transferência de R$ 100.000,00 da empresa DISMED em 23 de junho de 2023. A PF a
lista como uma das “destinatárias de transferências que não aparentam ser
parceiros/fornecedores” da empresa. O relatório também aponta que Inez possui
vínculos empregatícios com o Gabinete do Prefeito de Mossoró e com a Secretaria
de Estado da Administração do Rio Grande do Norte.
Procurada por
nossa reportagem via WhatsApp, Inez Martins inicialmente perguntou sobre o teor
da matéria. Ao ser informado sobre a transferência de R$ 100 mil da DISMED,
respondeu:
“Eu ??? Acho q
você pegou a pessoa errada”
Após a resposta,
o jornalista insistiu, confirmando o nome e perguntando se a conta dela poderia
ter sido usada sem seu conhecimento. Após esse último contato as mensagens
enviados pelo Blog não foram mais recebidas.
Inez também é
servidora da educação tanto no Estado, onde tem remuneração líquida em torno de
R$ 5 mil quanto aposentada da rede pública de Mossoró, com remuneração de R$
8,7 mil.
Perguntas Sem
Respostas
Os fatos
documentados pela PF e a apuração do Blog do Dina deixam um rastro de perguntas
sem respostas. No caso de Inez, o silêncio após uma resposta evasiva sobre R$
100 mil recebidos de uma empresa investigada. No caso de Clívia, a recusa em
apresentar provas que poderiam justificar por que um terreno vendido por R$ 100
mil no papel lhe rendeu R$ 430 mil na prática, pagos por uma conta usada para
lavagem de dinheiro. Sobre essa transação, considerando que o dinheiro envolva
apenas a transação imobiliária…
Ambos os casos demonstram como o dinheiro que circulava nas contas do esquema de corrupção da DISMED irrigou também as contas pessoais de servidoras da Prefeitura de Mossoró.
FONTE: Blog do Dina
0 comentários:
Postar um comentário