A polêmica que se instalou nos últimos dias em torno da
possível federalização ou privatização da Universidade do Estado do Rio Grande
do Norte (Uern) e da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte
(Caern) esteve longe de ser um debate profícuo sobre questões centrais para o
futuro do Estado. O que se viu, envolvendo os principais postulantes ao Governo
do Estado, não foi uma discussão qualificada sobre caminhos possíveis para duas
instituições estratégicas. O que se verificou foi uma corrida de oportunismo,
em que adversários tentaram surfar em um suposto deslize retórico de um dos
pré-candidatos, transformando um tema complexo em combustível para engajamento
nas redes sociais.
O episódio teve início após declarações do ex-prefeito de
Natal Álvaro Dias, hoje filiado ao PL e pré-candidato ao Governo do Estado. Ele
admitiu a possibilidade de discutir alternativas como a privatização ou a
federalização da Uern e da Caern. A repercussão foi imediata. Reitora,
professores, estudantes e adversários políticos reagiram. A professora Cicília
Maia, reitora da universidade, afirmou que “qualquer pessoa ou projeto que fale
contra a Uern não será aceito por nossa comunidade”. Outros pré-candidatos,
como Allyson Bezerra (União) e Cadu Xavier (PT), também aproveitaram a ocasião
para se apresentar como defensores da instituição.
O problema é que, em vez de surfar nesse oportunismo com
vistas tão somente a gerar engajamento nas mídias digitais, os pré-candidatos
ao governo deveriam fugir da dicotomia simplista entre privatizar ou não
privatizar a Uern e a Caern. O Rio Grande do Norte precisa de algo mais
relevante: proposições concretas para enfrentar dois grandes gargalos
históricos do Estado.
No caso da Uern, o debate
é ainda mais necessário porque, para além do populismo eleitoral que costuma
cercar esse tipo de discussão — com discursos calculados para angariar apoio de
professores, alunos, ex-alunos e servidores —, existe uma questão objetiva que
precisa ser enfrentada. O Rio Grande do Norte dispõe ou não de condições
financeiras para sustentar, com recursos próprios, uma universidade estadual
capaz de oferecer ensino superior de alta qualidade?
A comparação com
instituições como a Universidade de São Paulo (USP) ou com universidades
estaduais do Ceará e do Paraná pouco ajuda quando se ignora a realidade fiscal
potiguar. O fato é que o Rio Grande do Norte enfrenta graves limitações
orçamentárias. O Estado mal consegue cumprir os mínimos constitucionais na
educação básica, que é sua responsabilidade primordial. Nos últimos anos, não
houve incremento significativo de recursos nem expansão consistente de
investimentos no setor, justamente porque as finanças públicas seguem
pressionadas.
O reflexo dessa escassez
aparece nos indicadores educacionais. Basta observar os resultados do Ideb e de
outros índices para constatar que a educação pública potiguar continua aquém do
desejável. A deficiência não se restringe à universidade. Ela começa na base,
onde estão as maiores obrigações do Estado e onde se formam as condições para
que os estudantes cheguem ao ensino superior em melhores condições.
Nesse contexto, discutir a
federalização ou até mesmo a privatização da Uern não deveria ser tratado como
heresia. Trata-se de um debate legítimo. Se a retirada dessa obrigação do
orçamento estadual permitir que sobrem recursos para reforçar a educação
básica, é natural que a hipótese seja ao menos considerada, sem histeria e sem
slogans.
Isso não significa
desconsiderar o papel histórico da Uern, sua importância para a interiorização
do ensino superior e sua contribuição na formação de milhares de profissionais
potiguares. Significa apenas reconhecer que nenhuma instituição pública deve
estar imune a uma discussão franca sobre sustentabilidade, qualidade e
prioridades.
A reação ao episódio
também expôs as fragilidades do próprio Álvaro Dias. Seu posicionamento deixou
evidente que ele não tinha uma posição definida sobre temas sensíveis para o
Rio Grande do Norte. Em vez de apresentar uma proposta clara, recorreu a
formulações vagas, mencionou a possibilidade de estudos e, posteriormente,
recuou diante da repercussão.
Ficou patente um certo
malabarismo eleitoral e verborrágico, na tentativa de se ajustar ao novo campo
ideológico em que passou a atuar. Álvaro, que já integrou partidos de centro e
de esquerda, como o PDT, hoje está no PL. Sua fala inicial soou alinhada ao
discurso mais radical do partido e do senador Rogério Marinho. Depois,
provavelmente orientado pelo marketing político, tratou de relativizar o que
havia dito.
Se Álvaro demonstrou
indefinição, seus adversários também não apresentaram nada de substancial.
Aproveitaram a controvérsia para capitalizar politicamente, mas sem oferecer
propostas factíveis, reais e concretas para o futuro da Uern.
Esse é o ponto central. Se
não há disposição para defender a federalização nem para discutir a
privatização, então que todos os pré-candidatos, sem exceção, abandonem o
lugar-comum das declarações de ocasião e apresentem um plano efetivo de
evolução e desenvolvimento da universidade.
A Uern precisa de metas de
qualidade acadêmica, fortalecimento da pesquisa, expansão da extensão,
modernização da infraestrutura, valorização docente e sustentabilidade
financeira. Precisa, sobretudo, de um projeto consistente, que a faça avançar.
Porque, a julgar pelos
posicionamentos apresentados até agora, o debate continua restrito à
superfície. E, se permanecer assim, seja qual for o governador eleito em 2026,
nada de relevante acontecerá.
A Uern continuará
convivendo com limitações que impedem voos mais altos, enquanto a educação do
Rio Grande do Norte seguirá presa aos mesmos indicadores insatisfatórios que há
anos expõem a distância entre o discurso político e a realidade.