A gestão Allyson é tratada
em conversas sobre a distribuição de propina e do esquema que os sócios da
Dismed haviam montado como fundamental para a operação em outras cidades.
Os sócios da Dismed, numa manhã de terça-feira, 13 de maio de 2025, falaram sem
rodeios do coração do esquema, sem o qual não seria possível sustentar a
arquitetura criminosa que desenharam. Os dois estavam sendo gravados, sem
saber, por câmera escondida pela Polícia Federal. Eram Oseas Monthalggan
Fernandes Costa, sócio-administrador da empresa, e Raimundo Wandecy Campelo
Gurgel — vulgo “Nenén”, ex-sócio da Dismed e, na época, funcionário da
distribuidora. O assunto era a Prefeitura de Mossoró, sua principal cliente. Em
determinado momento da conversa, Nenén foi categórico:
“Agora na DISMED hoje se
não tivesse MOSSORÓ nós não tinha volume pra ganhar não. (…) Se não tiver uma
prefeitura grande, uma Macaíba, se a gente agregasse outro ponto em cima de
MOSSORÓ a gente não tava dando conta de tanto serviço.”
Em outro momento da mesma conversa, na página 1045, Nenén
tinha sido ainda mais direto: “se não tivesse MOSSORÓ não tinha as outra”. E
mais adiante, acrescentam: “MOSSORÓ hoje se ela lhe pagasse quinhentos mil você
ia achar graça no dinheiro. (…) Pronto, o pulmão enchia de ar.”
Em quatro páginas seguidas de transcrição, dois operadores do
esquema descrevem, em primeira pessoa, a dependência absoluta de toda a
operação da Dismed no Rio Grande do Norte a
uma única cidade — Mossoró.
Os números levantados pelo Ministério Público Federal dão a
dimensão exata do que Nenén tentava explicar a Oseas. Entre 2021 e 2025, a
Prefeitura de Mossoró pagou à Dismed mais de R$ 13,5 milhões —
segundo dados extraídos pela PF do Tribunal de Contas do Estado e reproduzidos
nos autos do processo da Operação Mederi. É mais do que toda a soma documentada
do que a empresa recebeu de Serra do Mel, José da Penha, Apodi, Paraú e Pau dos
Ferros juntos.
O retrato dos
clientes
Perícia da PF juntada aos autos
da Operação Mederi, ranqueia os principais municípios que pagaram à Dismed nos
últimos anos. O retrato é desigual.
Somados, os outros cinco
municípios chegam a R$
9,2 milhões. Mossoró sozinha, em quatro
anos, foi R$
4,29 milhões a mais do que esses cinco juntos.
Na proporção total documentada nos autos — cerca de R$
22,7 milhões somando os seis municípios —, Mossoró respondeu por 59%
de tudo. Não é uma cidade entre outras na carteira da Dismed. É
a viga mestra.
O contraste fica ainda mais agúdo na comparação entre
períodos. Serra do Mel, terceira maior cliente da empresa em todo o período
investigado, pagou R$ 4,09 milhões à Dismed ao longo de quase uma década, entre
2016 e 2025. Mossoró superou esse valor sozinha em um
único ano: 2024, quando pagou R$ 5,86 milhões à distribuidora.
“O pulmão
enchia de ar” na Gestão Allyson
A conversa entre Nenén e Oseas naquela manhã de maio durou em
torno de meia hora. Está reproduzida em quatro arquivos sequenciais, todos
transcritos pela PF entre as páginas 1045 e 1048 do processo. O ponto que Nenén
tentava enfiar na cabeça de Oseas, naquela conversa, era de matemática de
gestão: a Dismed estava aceitando margens menores em Mossoró porque o volume da
cidade compensava, e — mais importante — porque o volume da gestão Allyson era
o que permitia comprar barato nas outras pontas.
NENÉN: “Tá dando volume pra gente ganhar nos outros canto.
Tá dando volume pra nós comprar uma coisa lá que [inaudível] de seis centavos,
cinco, hoje eu compro de quatro.”
A lógica é simples e está toda registrada na escuta. Quanto
maior o volume da operação, maior o desconto que a Dismed conseguia dos
fornecedores. Com o desconto, a empresa baixava o custo de aquisição dos
medicamentos — e podia oferecer preços mais competitivos para vencer ou fraudar
licitações em outros municípios. Mossoró financiava, em escala, o desconto da
Dismed em Janduís, Caraúbas, Felipe Guerra. O termo que Nenén usa é direto: “o
pulmão enchia de ar”.
A
matemática nua de uma Ordem de Compra sobre propinas em Mossoró
No mesmo conjunto de gravações, Oseas detalha a Nenén a
estrutura de custos de uma operação típica em Mossoró.
OSEAS: “Vem quinhentos mil de ordem de compra, pra gente
ganhar dinheiro era pra gente entregar no mínimo aí 60%, aí dos quinhentos a
gente tá entregando duzentos e cinquenta pelo preço, você concorda comigo? (…)
Duzentos e cinquenta você tá perdendo, dos duzentos e cinquenta vezes vinte e
cinco por cento que é quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por
cento né? A gente já está perdendo sessenta e três mil, aí dos outros duzentos
e cinquenta, a gente tá usando trinta, margem de trinta por cento né?”
Traduzindo a fala em linguagem fora do código: para cada R$
500 mil pagos por uma Ordem de Compra da Prefeitura, a Dismed entregava metade
— cerca de R$ 250 mil em medicamentos a preço de custo. A outra metade era
dividida entre propinas e margem da empresa. Os sócios chegam, em cálculo de
cabeça, ao seguinte desenho:
Fo nesse diálogo onde foi cunhada a famosa matemática de Mossoró, segundo a qual na gestão
Allyson, ele tinha direito sobre 15% dos valores desviados e uma pessoa que os
sócios da Dismed chamam de Fátima, ficava com 10%.
O
“homem” das gravações, segundo a leitura da PF (página 1043 do mesmo processo),
é o então prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra; “Fátima” é Maria de Fátima
Dantas dos Santos, assessora de comunicação nomeada por Allyson na Portaria nº
157/2024. Em outro trecho da mesma gravação, Oseas resume a equação de cabeça:
“Se você vender um milhão, você só vai ver quinhentos.”
O que
faltava — e a frustração com o ritmo
Naquela manhã de maio, Nenén estava preocupado com uma coisa:
o ritmo das Ordens de Compra. Em sua percepção, Mossoró estava puxando o freio:
NENÉN: “Agora a matemática MONTHALGGAN, se você for analisar,
o que eu vejo de MOSSORÓ é que tá vindo pouca Ordem de Compra pro volume de
MOSSORÓ. Como é que MOSSORÓ pede seiscentos mil reais e põe duas ordem de
compra de trezentos mil? (…) Pra dois meses!”
A reclamação dos sócios da Dismed era de que, naquele
momento, a gestão Allyson estava emitindo menos OCs do que a cidade — segundo
eles — comportaria. Para contrastar, Nenén compara o ritmo de Mossoró ao de
José da Penha, cidade de cerca de 6 mil habitantes no Alto Oeste potiguar:
NENÉN: “Aí JOSÉ DA PENHA, no mesmo intervalo de tempo, usa
duzentos mil. (…) A proporção, MONTHALGGAN, é como se MOSSORÓ tivesse uns dois
milhões!”
Em outras palavras: pelo padrão de consumo de uma cidade
pequena como José da Penha, projetado para o porte de Mossoró — cidade trinta a
quarenta vezes maior em população —, a demanda deveria estar em torno de R$ 2
milhões mensais. Mas estava chegando apenas R$ 600 mil a cada dois meses.
Nenén não escondia o que considerava o ritmo “natural”
daquele esquema: “MOSSORÓ era no mínimo ali era quinhentos mil conto no mês!”
Quinhentos mil reais ao mês em Ordens de Compra. Seis milhões de reais por ano.
Próximo do pico de fato registrado pela Prefeitura de Mossoró com a Dismed em
2024 — R$ 5,86 milhões, segundo dados do
TCE-RN reproduzidos no processo.
Por que a
Dismed “arrematava em todo canto”
A frase mais sintética da escuta sobre a economia política do
esquema veio em sequência. Nenén estava explicando a Oseas por que era
importante manter Mossoró rodando, com a gestão Allyson, mesmo com margens
apertadas:
NENÉN: “Agora na DISMED hoje se não tivesse MOSSORÓ nós não
tinha volume pra ganhar não. Você vê que onde a gente vai a gente arremata em
todo canto.”
“Arrematar em todo canto” significava, na linguagem dos
sócios, vencer licitações nos pequenos municípios do Rio Grande do Norte. As
listas levantadas pela PF ao longo do inquérito identificaram contratos da
Dismed em pelo menos vinte e dois municípios potiguares — entre eles Tibau,
Upanema, Areia Branca, Caraúbas, Felipe Guerra, São Miguel, Janduís, Apodi, Pau
dos Ferros, Severiano Melo, Pendências, Marcelino Vieira, Luís Gomes, Patu e
Macau.
Em cada um desses municípios, a Dismed conseguia oferecer
preços competitivos porque comprava em escala. E comprava em escala porque
Mossoró garantia o piso do faturamento. A engenharia dos sócios era essa:
aceitar a margem apertada em Mossoró, com a propina embutida no fluxo, para
ganhar o desconto do fornecedor e usá-lo como vantagem competitiva nas outras
pontas.
MOSSORÓ
chegou a ter dois milhões”
Em determinado momento da gravação, Oseas reforça a tese de
Nenén com um número de memória — uma referência ao pico do que a empresa já fez
na cidade:
OSEAS: “Ali não vende não, MOSSORÓ chegou a ter dois
milhões [inaudível].”
A passagem, embora truncada pela má qualidade do áudio,
conversa com o pico documentado pelo TCE-RN: em 2024, a Prefeitura de Mossoró
pagou R$ 5,86 milhões à Dismed em um único ano. Era a confirmação, em valores
reais, do que Nenén tentava dizer. Nenhum outro município chegou perto. A
própria Serra do Mel — onde o sócio José Moabe é vice-prefeito e que aparece
como terceira maior remetente nos autos —, em quase uma década de
relacionamento, pagou R$ 4,09 milhões à Dismed. A gestão Allyson pagou esse
valor sozinha em aproximadamente oito meses, em 2024.
O que muda
quando se entende a dependência
A descrição que Nenén faz do papel de Mossoró no esquema tem
três implicações práticas, todas ancoradas em outras peças do processo.
A primeira é que a queda do faturamento da
Dismed, após a fase ostensiva da Operação Mederi em 27 de janeiro de 2026, foi
vertiginosa. A Representação Criminal registra que o
faturamento da empresa caiu 87,13% entre
janeiro e fevereiro de 2026 — de R$ 1,36 milhão para R$ 175 mil em um único
mês. O MPF atribui a queda ao “estancamento do desvio, não ao bloqueio” de
contas. Os números do TCE confirmam: sem a gestão Allyson rodando no padrão
habitual, a empresa entrou em colapso operacional.
A segunda é que a Dismed continuou a vencer
contratos em outros municípios mesmo durante a investigação. A Prefeitura de
Pau dos Ferros, por exemplo, homologou uma Ata de Registro de Preços com a
empresa em 17
de outubro de 2025 — dezoito dias antes de a Representação
Criminal ser protocolada no TRF-5. O valor: R$ 969.489,00.
A Prefeitura de Apodi assinou outra ata com a Dismed em 6
de novembro de 2025 — dois dias após o protocolo da
representação criminal. Os pequenos municípios que Nenén dizia que a Dismed
“arrematava em todo canto” continuavam contratando.
A terceira é que a investigação da Operação
Mederi atinge, em essência, um modelo econômico, não um
conjunto isolado de contratos. A Dismed estruturou uma operação em que o volume
de uma única cidade financiava a presença comercial em outras vinte. Quando a
fonte principal fechou, todo o resto se tornou inviável. Os próprios sócios
sabiam disso — e o disseram, em maio de 2025, sem saber que estavam sendo
gravados.
O
contraponto silencioso
A gestão Allyson e os sócios da Dismed, ouvidos em outros
momentos da investigação, têm contestado as conclusões do MPF. A defesa de
Oseas e de Roberta Praxedes Costa nega o cabimento das medidas cautelares
deferidas pelo TRF-5. A defesa da Prefeitura de Mossoró tem sustentado, em
manifestações públicas, que os contratos com a Dismed seguiram os trâmites
legais de licitação. A administração atual da cidade, a cargo do prefeito
Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, ainda não se manifestou especificamente
sobre o conteúdo das escutas que descrevem Mossoró como motor do esquema.
O Blog do Dina segue
apurando. O espaço está aberto para manifestação.
Fonte: Blog do Dina.
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