A inauguração do Hospital Municipal Francisca Conceição
da Silva, em janeiro deste ano, foi cercada de forte promoção por parte da
gestão do prefeito Allyson Bezerra, que apresentou a unidade como um marco
histórico para a saúde pública de Mossoró. Quatro meses após a entrega, porém,
a estrutura passou a ser alvo de críticas da população mossoroense, que
questiona a falta de estrutura, como leitos de UTI (Unidade de Terapia
Intesiva) e a seletividade nos atendimentos e na abertura do hospital, que não
funciona nos finais semana e não pode atender a casos graves de urgência.
Em entrevista ao Diário do RN, o secretário estadual de
Saúde, Alexandre Motta, reforçou as críticas e afirmou que, tecnicamente, a
unidade não possui capacidade para funcionar como um hospital de maior
complexidade.
Segundo Motta, o equipamento possui estrutura limitada,
com apenas 10 leitos e sem UTI, o que restringe o atendimento a cirurgias
eletivas simples e pacientes considerados de baixo risco. “O hospital não tem
UTI e não tem uma demanda para fazer algo que exija maior complexidade”,
afirmou o secretário.
De acordo com ele, os pacientes são previamente
selecionados justamente para evitar situações de agravamento. “Todas as
cirurgias que vão ser feitas lá são de pessoas que não envolvem risco.
Qualquer um que tem um pouco mais de complicação eles não
fazem, exatamente porque não têm estrutura suficiente para dar uma resposta”,
criticou Motta.
A preocupação da Sesap, segundo o secretário, é
justamente a ausência de suporte para eventuais intercorrências médicas. “Toda
cirurgia tem algum grau de imprevisibilidade. Se acontecer uma situação dessa
lá, ele vai ter que encaminhar esse paciente para alguma porta de urgência”,
alertou. De acordo com Motta, pacientes que apresentem complicações precisam
ser transferidos para hospitais estaduais com suporte de UTI. Inclusive,
segundo o secretário, recentemente dois pacientes foram encaminhados para o
Hospital Regional Tarcísio Maia após intercorrências registradas no hospital
municipal.
Outro ponto questionado é o funcionamento restrito da
unidade, sem atendimento de urgências e emergências nos finais de semana, o que
caracterizaria a modalidade de Policlínica. “O Hospital de Mossoró consegue
fazer cirurgias eletivas de pequeno porte e, quando chega no final de semana,
fecha”, afirmou o secretário ao Diário do RN. Questionado sobre a normalidade
desse tipo de operação em uma unidade hospitalar, respondeu: “Do ponto de vista
normal, não”.
Na avaliação da Sesap, o hospital também não funciona
integrado à rede pública de saúde. “Todos os hospitais agem dentro de uma rede.
O hospital de Mossoró age só para ele”, afirmou Motta.
Segundo ele, a própria Prefeitura regula os atendimentos
e seleciona os procedimentos realizados. “Ele escolhe o que vai fazer. Vai
pegar aqueles casos de média e baixa complexidade que não vão complicar”,
declarou o secretário.
De acordo com Motta, a estrutura também não ajuda a
desafogar os hospitais estaduais, especialmente o Hospital Regional Tarcísio
Maia, principal unidade de urgência e emergência da região Oeste. “O que
Mossoró sempre precisou foram leitos de retaguarda. Isso, sim, ajudaria o
sistema como um todo”, afirmou.
Na época da inauguração, a Prefeitura informou que o
equipamento possuía três salas cirúrgicas, enfermarias, radiologia, central de
esterilização, gerador de energia, usina de oxigênio e prontuário eletrônico,
além de acessibilidade para pessoas com deficiência. O município também
destacou que o hospital atuaria na redução das filas de cirurgias eletivas.
Porém, na avaliação da pasta estadual, o impacto prático
da unidade é reduzido diante das necessidades da população. “Da forma como
está, ajuda muito a imagem do prefeito, mas resolve pouco da vida da saúde do
povo de Mossoró”, criticou Motta.
O secretário estadual também declarou desconhecer
vistorias recentes do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Norte
(Cremern) na unidade municipal. “Talvez fosse interessante verificar se cumpre
aquilo que se espera de uma unidade hospitalar”, disse. Procurado pela
reportagem do Diário do RN, o Cremern não retornou o contato até o fechamento
desta edição.
Apesar das críticas, Motta reconheceu que a unidade pode
contribuir para procedimentos simples e redução parcial das filas de cirurgias
eletivas. Ainda assim, reforçou que a estrutura está distante do que Mossoró
necessita. “Não é que seja ruim, mas é absolutamente insuficiente para o que
Mossoró precisa”, concluiu o secretário.
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