Por mais que a política nos
divida, a vida nos lembra que somos parte das mesmas famílias, amizades e
comunidades.
A política deveria ser um instrumento de transformação da
sociedade, jamais um motivo para destruir amizades, provocar desavenças
familiares ou transformar pessoas em inimigas. No entanto, o que vemos em
tempos de eleição é uma preocupante inversão de valores: em muitos casos, o
radicalismo fala mais alto do que o bom senso, e a intolerância ocupa o lugar
do diálogo.
Diante desse cenário, vale recordar uma das mais belas
mensagens da oração de São Francisco: “Onde houver ódio, que eu
leve o amor”. Uma reflexão simples, mas necessária em um momento em
que o Brasil e o Rio Grande do Norte enfrentam disputas políticas marcadas por
fortes paixões e posições divergentes.
Na corrida pela Presidência da República, Lula e Flávio
Bolsonaro protagonizam uma disputa que mobiliza o país. No Rio Grande do Norte,
Allyson Bezerra e Cadu Xavier também disputam a preferência dos eleitores. São
projetos e correntes políticas diferentes, diante dos quais cada cidadão tem o
direito de fazer sua própria avaliação e escolher livremente o seu candidato.
O problema começa quando a preferência eleitoral deixa de
ser uma escolha individual e passa a ser motivo de cobranças, julgamentos,
ofensas e rompimentos. O voto é secreto, a
consciência é individual e ninguém tem obrigação de expor sua preferência
política para satisfazer a curiosidade ou a pressão de terceiros.
É legítimo defender um candidato, criticar adversários e
debater propostas. O que não é aceitável é ultrapassar os limites do respeito,
como se a escolha de um número na urna fosse suficiente para definir o caráter
de uma pessoa.
É preciso compreender que a democracia não exige que
todos pensem da mesma maneira. Pelo contrário, ela se fortalece quando pessoas
com opiniões diferentes conseguem conviver, dialogar e respeitar umas às
outras.
Amanhã haverá vencidos e vencedores. Mas, encerrada a
votação, a realidade continuará diante de todos nós. Na segunda-feira, as
famílias continuarão reunidas, os amigos continuarão se encontrando e os
problemas do país e do nosso estado continuarão exigindo soluções.
Aos eleitos caberá uma responsabilidade ainda maior:
governar para todos, sem distinção entre quem lhes deu o voto e quem escolheu
outro caminho. A vitória eleitoral não é uma autorização para governar apenas
para os aliados, assim como a derrota não retira de ninguém o direito de
cobrar, fiscalizar e participar da vida pública.
A política é passageira. Os mandatos têm prazo para
terminar. Já as amizades construídas ao longo dos anos, os laços familiares e a
convivência entre as pessoas merecem muito mais cuidado do que as disputas de
uma campanha.
Que a paixão política não nos
faça perder aquilo que o dinheiro não compra e que nenhuma eleição pode
devolver depois de destruído: a confiança, a amizade e o respeito.
Podemos discordar sem ofender, defender nossas convicções
sem agredir e votar em candidatos diferentes sem transformar nossas diferenças
em inimizade.
A eleição termina. Os mandatos passam. A vida continua.
Que, acima de qualquer candidato ou partido, prevaleçam a paz, o respeito e a capacidade de reconhecer que somos diferentes, mas continuamos sendo seres humanos com o mesmo direito de pensar, escolher e viver em liberdade.














