O Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte
ajuizou, em 25 de maio de 2026, uma Ação Civil Pública contra a Prefeitura de
Mossoró apontando um suposto “apagão de transparência” na política cultural do
município durante a gestão do então prefeito Allyson Leandro Bezerra Silva,
afastado do cargo desde o fim de março deste ano.
A ação, protocolada pela 2ª Promotoria de Justiça de Mossoró,
é resultado do Inquérito Civil nº 04.23.2022.0000032/2025-08, tramita sob o
processo nº 0813392-42.2026.8.20.5106 e teve valor atribuído de R$ 100 mil.
No documento, o Ministério Público descreve um cenário de
suposta desorganização administrativa, esvaziamento do controle social,
ausência de publicidade oficial, reuniões sem transparência e resistência da
gestão municipal em entregar documentos, atas e gravações relacionados ao
Conselho Municipal de Políticas Culturais (CMPC).
Segundo a promotoria, mesmo após diversas requisições
oficiais, a Prefeitura apresentou apenas quatro atas de reuniões do conselho,
três referentes a 2023 e apenas uma de 2024. Para o MP, os documentos
indicariam que apenas duas reuniões ordinárias efetivas teriam ocorrido em mais
de um ano.
Justiça dá prazo para
Prefeitura se manifestar antes de analisar liminar.
No mesmo dia em que a ação foi ajuizada, o juiz Pedro Cordeiro
Júnior proferiu despacho determinando a intimação prévia da Prefeitura de
Mossoró antes da análise do pedido liminar apresentado pelo Ministério Público.
Na decisão, assinada às 19h39 do dia 25 de maio de 2026, o
magistrado afirmou que, “dadas as peculiaridades do caso concreto”, considerou
prudente ouvir previamente a parte contrária no prazo de cinco dias, com
fundamento no artigo 300, parágrafo 2º, do Código de Processo Civil.
Com isso, a Prefeitura terá prazo para apresentar
manifestação antes que a Justiça decida sobre os pedidos urgentes formulados
pelo Ministério Público.
Após o prazo, com ou sem resposta da gestão municipal, o
processo retornará concluso para decisão judicial.
Mossoró Cidade Junina entra no
centro da ação
Um dos pontos mais sensíveis da ação envolve o Mossoró Cidade
Junina, principal evento cultural do município.
O Ministério Público afirma que não ficou comprovado que o
evento tenha passado por discussão e deliberação prévia do Conselho Municipal
de Cultura, como prevê a legislação municipal e recomendações expedidas
anteriormente pelo próprio MP.
Na liminar, a promotoria pede que a Justiça obrigue a
Prefeitura de Mossoró a apresentar atas, registros e documentos que comprovem
que decisões relacionadas ao Mossoró Cidade Junina 2026 foram oficialmente
debatidas pelo conselho cultural.
MP aponta risco de “malversação
de verbas públicas”
Outro trecho considerado grave pela promotoria afirma existir risco
de “malversação de verbas públicas” na política cultural do município.
O documento reúne relatos de artistas, conselheiros e
representantes culturais que apontam suposto favorecimento em editais,
pareceristas indicados sem seleção pública, ausência de justificativas para
notas atribuídas, divergências entre decisões tomadas em escutas públicas e os
editais posteriormente publicados, além do possível uso irregular de recursos
federais da cultura.
Entre os casos citados está a destinação de R$ 760 mil da
Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) para a reforma da Escola de Artes de
Mossoró.
Segundo integrantes do setor cultural ouvidos pelo Ministério
Público, a decisão contrariaria discussões realizadas nas escutas públicas,
onde artistas defendiam que os recursos fossem destinados diretamente ao
fomento cultural.
A ação também menciona outro valor considerado controverso:
R$ 600 mil que, segundo representantes culturais, deveriam ter sido
redirecionados para ações de incentivo à cultura, mas teriam permanecido
vinculados à reforma estrutural da Escola de Artes.
Reuniões sem atas, convocações por WhatsApp e documentos não
entregues
A promotoria relata ainda que reuniões teriam ocorrido sem publicidade
adequada, com convocações realizadas via WhatsApp, ausência de atas oficiais,
cancelamentos sucessivos e negativa de entrega de gravações solicitadas pelo
Ministério Público junto à Secretaria de Cultura e à Secretaria de Comunicação.
Segundo o MP, houve situações em que atas sequer foram
assinadas porque a reunião seguinte acabou cancelada.
Outro ponto citado na ação é que o Portal da Transparência do
município apresentaria registros financeiros ilegíveis relacionados à execução
orçamentária da cultura nos anos de 2023 e 2024.
Conselho Municipal de Cultura
teria sido esvaziado
A Ação Civil Pública também questiona mudanças promovidas na
legislação municipal em 2025.
Segundo o Ministério Público, alterações feitas pela
Prefeitura retiraram da lei a obrigação de cooperação do Conselho Municipal de
Cultura nas decisões relacionadas às políticas culturais do município, o que, para
a promotoria, teria enfraquecido o controle social sobre a aplicação dos
recursos públicos da cultura.
O que o Ministério Público pede
na Justiça
Na ação, o MP pede que a Justiça determine que a Prefeitura de
Mossoró:
• regularize imediatamente o funcionamento do Conselho Municipal de Cultura;
• elabore calendário anual de reuniões;
• realize reuniões periódicas;
• publique atas e documentos oficiais;
• grave integralmente as reuniões;
• assegure participação da sociedade civil;
• mantenha transparência sobre decisões e recursos culturais;
• regularize o Fundo Municipal de Cultura, com CNPJ e conta bancária própria,
no prazo máximo de seis meses.
A promotoria também pede aplicação de multa em caso de
descumprimento das determinações judiciais.
Para o Ministério Público, o cenário atual compromete a
transparência da gestão cultural, enfraquece o controle social e coloca sob
questionamento a correta aplicação de verbas públicas destinadas à cultura em
Mossoró.
“A situação atual é insustentável.”
“Presente também se encontra o perigo de dano.”
“Há iminente risco de malversação de verbas públicas.”
“Não se restou comprovada a efetiva publicidade dos atos do
Conselho Municipal de Políticas Culturais.”
“A omissão na estruturação do Conselho Municipal tende a
torná-lo dependente dos interesses políticos oriundos do Poder Executivo
local.”
“A alteração legislativa suprimiu a menção à cooperação do
Conselho Municipal de Cultura.”
“A medida causa estranheza.”
Diário do RN