À medida que a
campanha eleitoral se aproxima, cresce naturalmente a atenção sobre alianças
partidárias, pesquisas de intenção de voto, agendas pelo interior e movimentos
de bastidores. Tudo isso faz parte da política. Mas não deveria ocupar sozinho
o centro do debate. Há um tema muito maior, muito mais urgente e muito mais
determinante para o futuro do Estado: a delicada situação fiscal do Rio Grande
do Norte.
Os números
divulgados nas últimas semanas apenas reforçam um diagnóstico que já vinha
sendo construído há algum tempo. O Rio Grande do Norte continua convivendo com
um quadro de desequilíbrio estrutural das contas públicas, marcado pelo elevado
comprometimento das receitas, baixa capacidade de investimento, déficit
previdenciário crescente, elevado estoque de precatórios e dificuldades
permanentes de liquidez. É um cenário que limita a atuação de qualquer governo,
independentemente de quem esteja no poder.
O dado mais recente divulgado pela Secretaria do Tesouro Nacional aponta que o Rio Grande do Norte passou a ocupar também a liderança nacional em outro indicador preocupante: o peso dos precatórios. O estoque dessas dívidas judiciais já representa 36,1% da Receita Corrente Líquida do Estado, a maior proporção do Brasil. Trata-se de mais uma obrigação que pressiona as finanças estaduais e reduz a margem para investimentos e políticas públicas.
Esse indicador
soma-se a outro já conhecido: o Estado continua sendo o campeão nacional em
comprometimento da receita com despesas de pessoal do Poder Executivo. No
primeiro quadrimestre deste ano, esse percentual atingiu 56,12%, muito acima do
limite máximo de 49% previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Apenas a
Paraíba também ultrapassou o teto legal, embora em patamar significativamente
inferior.
Ao mesmo tempo,
o déficit da Previdência estadual voltou a crescer. Em 2025, ultrapassou R$ 2
bilhões. Apenas para manter o pagamento de aposentadorias e pensões, o Tesouro
Estadual precisou complementar mais de R$ 2 bilhões entre arrecadação e
despesas do regime próprio. É um dinheiro que deixa de estar disponível para
investimentos em infraestrutura, segurança, saúde ou educação.
Os próprios
dados do Ipern mostram que o problema não desaparecerá rapidamente. Hoje, o
Estado possui cerca de 54 mil servidores ativos, 49 mil aposentados e 14 mil
pensionistas. Em outras palavras, a maioria da massa vinculada ao regime próprio
já é composta por inativos. Segundo a direção do instituto, o déficit
financeiro deverá continuar crescendo até aproximadamente 2035 antes de iniciar
uma trajetória de estabilização.
A isso se somam
outros números conhecidos. O orçamento de 2026 já nasce prevendo déficit
superior a R$ 1,5 bilhão. O Estado iniciou o exercício com disponibilidade de
caixa negativa acima de R$ 3 bilhões. Entre janeiro e abril, embora a
arrecadação tenha crescido em relação ao ano passado, foi inferior ao previsto,
obrigando o governo a contingenciar quase R$ 500 milhões em despesas. A dívida
consolidada alcançou R$ 9,7 bilhões ao final de 2025, crescimento de 35% em
apenas um ano. Segundo o Tesouro Nacional, apenas 4% da receita estadual são
destinados a investimentos — o menor percentual do País.
Nenhum desses
números significa que o Rio Grande do Norte esteja condenado à insolvência ou
que não existam avanços administrativos. O próprio governo tem destacado o
crescimento da arrecadação, o resultado orçamentário positivo no primeiro
quadrimestre e medidas adotadas para conter a expansão das despesas
previdenciárias, além do aumento nos investimentos a partir de operações de
crédito. Tudo isso merece ser considerado. Mas seria um erro ignorar que, mesmo
diante desses resultados pontuais, os desafios estruturais permanecem
praticamente intactos.
É justamente por
isso que o debate eleitoral precisa amadurecer.
Este jornal já
observou, em outras oportunidades, que os principais pré-candidatos ao Governo
têm preferido concentrar esforços em agendas políticas, comparações entre
gestões, críticas aos adversários e discursos genéricos sobre responsabilidade
fiscal. Nada disso substitui a apresentação de propostas concretas para
enfrentar questões que se acumulam há décadas.
Não se espera,
evidentemente, que candidatos apresentem soluções mágicas para problemas que
atravessaram sucessivos governos. Também não seria razoável exigir planos
detalhados antes mesmo do início oficial da campanha. Mas já é perfeitamente
legítimo esperar diagnósticos consistentes e, principalmente, direções claras.
Como pretendem
reduzir o peso da folha sem comprometer os serviços públicos? Qual será a
estratégia para enfrentar o déficit previdenciário? Como reorganizar as
despesas obrigatórias? O que fazer em relação ao crescente estoque de
precatórios? Como ampliar a capacidade de investimento? Há espaço para uma
reforma administrativa? Como atrair investimentos privados sem perder
responsabilidade fiscal? Qual será o papel dos demais Poderes nesse esforço?
Essas perguntas não podem permanecer sem resposta.
Agora RN
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