O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (UB), reagiu, em
uma série de entrevistas, à deflagração da operação que cumpriu mandados de
busca e apreensão afirmando enfrentar o episódio “de cabeça erguida” e
reiterando inocência. No entanto, ao comentar as razões que teriam levado a
Polícia Federal a deflagrar a ação, o prefeito passou a insinuar que a
investigação pode ter sido provocada a partir do repasse de informações falsas
ou distorcidas às autoridades.
“Tem que ver qual tipo de informação que foi apresentada,
porque se é apresentada uma informação que não é verídica, pode estar se
induzindo a Justiça ou as instituições a cometerem algum tipo de ação naquela
informação que foi apresentada, talvez de forma errada”, declarou Allyson
durante entrevista. A fala sugere que a Polícia Federal e o Judiciário
trabalham com base em dados inconsistentes.
Ao mesmo tempo em que afirma confiar na Justiça, o
prefeito busca deslocar o foco da operação para a origem das informações que
embasaram a investigação. “A Justiça tá no seu direito de apurar. Se o melhor
caminho é esse ou aquele, cabe à Justiça decidir. Não cabe a mim como político
decidir”, disse, antes de reforçar que leu o processo, reuniu-se com advogados
e que a defesa tratará do tema “do ponto de vista jurídico”.
A estratégia do discurso chama atenção porque, até aqui,
a operação não foi deflagrada a partir de uma denúncia isolada ou de mera
provocação política, mas sim após investigação conduzida pela Polícia Federal,
com autorização judicial, baseada em indícios considerados suficientes para a
adoção de medidas, como buscas e apreensões. Como já mostrado nos últimos dias,
esse tipo de operação pressupõe relatório técnico da instituição, análise de
provas preliminares e chancela do Judiciário, o que torna mais grave a tese de
que tudo teria se baseado apenas em “informações não verídicas”.
Ainda assim, Allyson reforçou que só estaria se expondo
publicamente porque acredita na própria versão. “Se eu não tivesse a clareza,
se eu não tivesse a condição de dizer a verdade, eu não estaria aqui. Eu estou
aqui porque acredito muito no que estou dizendo e estou mostrando dados e fatos
do meu trabalho”, afirmou.
O prefeito, no entanto, não apresentou quais seriam esses
dados nem explicou objetivamente quais pontos da investigação considera
equivocados.
Durante a entrevista, a ex-deputada federal Sandra Rosado
fez uma pergunta através do youtube gerando uma provocação política: “Algum
prefeito de Mossoró por acaso teve busca e apreensão em sua casa?”. Allyson
classificou o questionamento como “interessante” e passou a comparar o seu caso
com outros escândalos no Rio Grande do Norte, citando, por exemplo, episódios
envolvendo a Arena das Dunas, que envolveu a ex-governadora Rosalba Ciarlini.
“Talvez na época não tenha sido feito algo com tanta ênfase, com tanta força”,
disse, sugerindo tratamento desigual por parte das instituições.
Apesar disso, o prefeito evitou afirmar que tenha havido
excesso ou perseguição direta. Questionado se a “dose” teria sido maior em seu
caso, respondeu: “Não cabe a mim falar sobre isso. Eu deixo para a população
avaliar”.
Ainda assim, voltou a reforçar a comparação com
investigações de grande repercussão, como o caso dos respiradores durante a
pandemia, que envolveu o Governo do Estado. “Foi comprovado, não é questão de
suspeita. A governadora passou pelo que eu estou passando”, afirmou, lembrando
que houve buscas e apreensões na Secretaria Estadual de Saúde.
Ao mesmo tempo em que faz as insinuações sobre o fato,
Allyson Bezerra assegura isenção direta dele pessoalmente sobre os fatos
investigados pela PF, jogando a responsabilidade para outros, sem citar quem.
Anteriormente, em entrevista à mesma 98 FM, Allyson garantia que tinha controle
de tudo que acontecia em sua gestão: “eu tenho controle de tudo que é de gasto.
Não existe esse negócio de abre-aspas: “banda voou”, não. Não existe esse
negócio de abre-aspas: “casa de Mãe Joana, não. Tem controle”, garantiu.
Agora, o prefeito tenta se isentar da responsabilidade,
que recai sobre ele, segundo a PF, como topo do esquema de desvios em relação à
parte que investiga Mossoró.
Ao recorrer a esses paralelos, Allyson tenta normalizar a
operação e reduzir seu impacto político, mas também desloca o mérito da
investigação que o atinge diretamente. Enquanto insinua que informações falsas
podem ter chegado à Polícia Federal, a operação segue sem qualquer indicação
pública de irregularidade na condução das investigações.
Na prática, o discurso do prefeito se contradiz quando,
ao mesmo tempo em que diz respeitar a Justiça, lança dúvidas sobre os
fundamentos que levaram à ação policial. Cabe agora à sua defesa demonstrar,
nos autos, que a investigação foi baseada em dados inconsistentes ou se as
insinuações ficarão restritas ao campo político, enquanto a apuração avança no
campo jurídico.
Diário do RN
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