Enquanto o Rio
Grande do Norte se prepara para uma inédita eleição indireta em abril de 2026,
os livros de história nos levam a um cenário bem diferente, mas com sobrenomes
ainda muito familiares.
A última vez que
o governador do RN foi escolhido através de um voto que não veio das urnas
populares foi em 1º de setembro de 1978.
Naquela época, o
estado não vivia uma vacância de cargos por renúncia, como a que se desenha com
as saídas de Fátima Bezerra e Walter Alves. O motivo era o “Pacote de Abril”,
um conjunto de decretos do presidente Ernesto Geisel que garantia que o regime
militar mantivesse o controle dos estados sem o risco de derrotas eleitorais.
Em 1978, a
eleição não aconteceu no plenário da Assembleia Legislativa como ocorrerá daqui
a três meses. Ela foi decidida em um Colégio Eleitoral robusto, composto por
deputados estaduais e delegados das Câmaras Municipais.
A articulação
foi cirúrgica. O então governador Tarcísio Maia (pai de José Agripino Maia), um
dos homens mais influentes do estado, convenceu o homem forte de Geisel, o
general Golbery do Couto e Silva, de que o nome ideal para a sucessão era seu
primo, o médico Lavoisier Maia.
O ex-prefeito de
Mossoró e ex-senador Dix-huit Rosado sonhava com o cargo que já tinha tentando
em 1970 e 1974 (outras duas eleições indiretas), mas não houve prévias, nem
debates públicos. A ordem veio de Brasília e a bancada da ARENA, partido de
sustentação do regime, apenas cumpriu o script.
“Paz Pública”
Para suavizar a
imagem de um governo imposto, a articulação trouxe uma surpresa: Geraldo Melo
foi indicado para vice-governador. Geraldo tinha origens no grupo político de
Aluízio Alves, o maior rival dos Maia, e sua presença na chapa simbolizava uma
tentativa de união das elites políticas em torno do projeto militar.
Foi um acordão
que uniu Alves e Maia, as duas oligarquias que disputavam o poder no Rio Grande
do Norte. O acordão foi apelidado de “Paz Pública” e envolveu a eleição de
Jessé Freire para o Senado, pela ARENA com apoio dos Alves.
A oposição,
liderada pelo MDB, sabia que a derrota era certa. Dos 324 integrantes do
Colégio Eleitoral, 311 compareceram. Lavoisier foi eleito com 293 votos. Os 18
votos em branco registrados naquela tarde foram o gesto de resistência de
parlamentares como o jovem Garibaldi Alves Filho, que denunciavam o que
chamavam de “farsa democrática”.
O Contraste:
1978 vs. 2026
Embora o
mecanismo seja o mesmo — o voto indireto —, o abismo entre as duas épocas é
enorme:
- Em 1978, a eleição indireta era a ferramenta de uma ditadura para impedir a alternância de poder. Lavoisier governou por quatro anos completos.
- Em 2026, a eleição indireta é o remédio da democracia para evitar um vácuo de poder. O eleito será um “governador-tampão” com apenas nove meses de mandato.
Se em 1978 o
resultado era conhecido com meses de antecedência, o cenário atual é de
incerteza total. Em 78, a família Maia mandava e Brasília desmandava.
Em 2026, o
destino do Rio Grande do Norte está nas mãos de 24 deputados estaduais que, em
voto secreto, decidirão se mantêm o projeto do PT ou se entregam as chaves do
estado à oposição liderada por Rogério Marinho e o grupo de Allyson Bezerra.
Blog do Barreto
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