Olho D'água do Borges/RN -

Allyson ou Cadu: O RN está condenado a mais quatro anos de caos administrativo?

 

O Rio Grande do Norte chega a mais uma decisão eleitoral diante de uma pergunta incômoda: onde estão as lideranças capazes de tirar o estado do atoleiro administrativo, recuperar a credibilidade do poder público e recolocar o desenvolvimento no centro da agenda política?

O Rio Grande do Norte já teve lideranças que, independentemente das divergências ideológicas, conquistaram espaço no cenário regional e nacional. Uma geração de políticos que sabia articular, negociar e defender os interesses do estado nos grandes centros de decisão. Hoje, porém, a impressão que se impõe é a de um estado órfão de lideranças de peso, carente de estadistas, de gestores preparados e de homens públicos capazes de pensar além dos próprios projetos eleitorais.

O problema não é simplesmente a renovação política. Renovar é necessário. O que preocupa é a substituição de antigas lideranças por nomes que ainda precisam demonstrar capacidade administrativa, independência política, maturidade institucional e, sobretudo, competência para enfrentar os graves problemas do RN.

A pergunta que fica é direta: Allyson Bezerra ou Cadu Xavier? Qual dos dois reúne condições reais para interromper o ciclo de dificuldades que castiga os potiguares?

Cadu Xavier: a continuidade de um governo desgastado

Cadu Xavier representa a continuidade política do governo Fátima Bezerra, uma gestão marcada por dificuldades fiscais, conflitos com setores do funcionalismo e questionamentos sobre a capacidade do estado de oferecer serviços públicos de qualidade.

Como integrante da equipe econômica do governo, Cadu participou de decisões que incluem a política de aumento do ICMS, medida que provocou forte reação de setores produtivos e consumidores. Também carrega o peso político de uma administração que enfrentou problemas e questionamentos relacionados aos compromissos financeiros com servidores e à prestação de serviços essenciais.

Não é razoável que alguém que participou diretamente de uma gestão seja apresentado como se não tivesse qualquer responsabilidade por seus resultados. Se pretende governar o RN, Cadu precisa explicar o que faria de diferente, quais erros reconhece e como pretende corrigir os problemas que ajudou a administrar.

O eleitor tem o direito de cobrar respostas concretas, e não apenas promessas de continuidade com uma nova embalagem eleitoral.

Allyson Bezerra: mudança de discurso não basta

Do outro lado está Allyson Bezerra, que construiu sua trajetória política em Mossoró e agora busca ampliar seu projeto para todo o estado. Mas administrar um município e governar o Rio Grande do Norte são desafios de dimensões muito diferentes.

Sua passagem pela Prefeitura de Mossoró também está sujeita a questionamentos sobre a condução administrativa, as relações com servidores, a situação dos serviços públicos e denúncias que precisam ser esclarecidas pelas instâncias competentes.

A Operação Mederi, da Polícia Federal, acrescenta um elemento de preocupação ao debate público sobre a gestão municipal. Entretanto, é fundamental distinguir investigações, suspeitas e eventuais acusações de condenações definitivas. O que se exige de qualquer candidato é transparência, esclarecimento dos fatos e respeito aos mecanismos de investigação e à Justiça.

Allyson precisa demonstrar que tem mais do que capacidade eleitoral e habilidade de comunicação. Precisa provar que possui preparo para conduzir uma máquina pública complexa, enfrentar as dificuldades financeiras do estado e montar uma equipe técnica capaz de entregar resultados.

O RN não pode trocar um governo desgastado por uma aposta cujo desempenho estadual ainda precisa ser comprovado.

Um estado sem grandes perspectivas?

O drama potiguar vai muito além da disputa entre dois candidatos. Está na dificuldade de encontrar um projeto de estado capaz de superar interesses partidários, disputas pessoais e acordos eleitorais.

Segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, geração de empregos, atração de investimentos e equilíbrio das contas públicas exigem planejamento, competência e capacidade de articulação com o governo federal, os municípios e o setor produtivo.

Não basta ocupar o Palácio de Despachos. É preciso saber governar. Não basta anunciar obras. É necessário executá-las. Não basta prometer equilíbrio fiscal. É preciso administrar os recursos públicos com responsabilidade, transparência e eficiência.

O Rio Grande do Norte precisa de lideranças que tenham coragem de enfrentar privilégios, cortar desperdícios, qualificar a gestão e apresentar metas verificáveis. Precisa de alguém capaz de dialogar com adversários sem transformar a administração pública em instrumento de vingança política ou de interesses eleitorais.

Infelizmente, a disputa atual não desperta, por si só, a confiança necessária para alimentar grandes expectativas. Entre a continuidade de uma gestão contestada e uma alternativa que ainda precisa demonstrar sua capacidade de governar o estado, o eleitor encontra mais dúvidas do que certezas.

Vinte anos de frustrações administrativas e políticas

A sucessão de governos também ajuda a explicar o desencanto da população. Os períodos de Rosalba Ciarlini, Robinson Faria e Fátima Bezerra deixaram experiências administrativas distintas, mas alimentaram, em diferentes momentos, críticas, cobranças e frustrações entre os potiguares.

Somados, foram 16 anos de governos estaduais ao longo de duas décadas, considerando os quatro anos de Rosalba, os quatro de Robinson e os oito de Fátima. Se o próximo governo repetir os erros e as insuficiências que marcaram esse histórico, o estado poderá chegar a 20 anos de oportunidades perdidas e de dificuldades que se renovam a cada eleição.

Não se trata de afirmar que todos os governos foram iguais, mas de reconhecer que o resultado acumulado está muito aquém do que a população espera de um estado com potencial econômico, recursos naturais, produção agropecuária, turismo, energia renovável e uma população trabalhadora.

O RN não pode continuar refém de projetos políticos que prometem mudança durante a campanha e, depois da vitória, reproduzem velhas práticas, improvisações e disputas pelo poder.

O eleitor merece mais do que duas opções

A escolha entre Allyson Bezerra e Cadu Xavier é uma decisão que cabe ao eleitor. Mas a democracia não obriga ninguém a abandonar o senso crítico diante das opções apresentadas.

Independentemente de quem vença, o próximo governador terá de responder por suas escolhas, apresentar resultados e prestar contas à sociedade. A vitória nas urnas não será um cheque em branco.

O RN não merece mais quatro anos de improvisação, disputas políticas e expectativas frustradas. Merece um governo à altura de seus desafios.

Se Allyson ou Cadu não conseguirem demonstrar, na prática, que estão preparados para essa missão, a mudança de nome no comando do estado pouco significará para quem continua esperando por saúde de qualidade, segurança, emprego e oportunidades.

A pergunta final, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. É se o Rio Grande do Norte continuará elegendo governantes sem conseguir romper o ciclo de frustrações administrativas que há décadas compromete seu desenvolvimento.

Porque, quando a política deixa de apresentar soluções, quem paga a conta é o povo. E o povo potiguar já pagou caro demais. 

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