O Rio
Grande do Norte chega a mais uma decisão eleitoral diante de uma pergunta
incômoda: onde estão as lideranças capazes de tirar o estado do atoleiro
administrativo, recuperar a credibilidade do poder público e recolocar o
desenvolvimento no centro da agenda política?
O Rio Grande do Norte já teve lideranças que,
independentemente das divergências ideológicas, conquistaram espaço no cenário
regional e nacional. Uma geração de políticos que sabia articular, negociar e
defender os interesses do estado nos grandes centros de decisão. Hoje, porém, a
impressão que se impõe é a de um estado órfão de lideranças de peso, carente de
estadistas, de gestores preparados e de homens públicos capazes de pensar além
dos próprios projetos eleitorais.
O problema não é simplesmente a renovação política.
Renovar é necessário. O que preocupa é a substituição de antigas lideranças por
nomes que ainda precisam demonstrar capacidade administrativa, independência
política, maturidade institucional e, sobretudo, competência para enfrentar os
graves problemas do RN.
A pergunta
que fica é direta: Allyson Bezerra ou Cadu Xavier? Qual dos dois reúne
condições reais para interromper o ciclo de dificuldades que castiga os
potiguares?
Cadu Xavier: a continuidade de um governo desgastado
Cadu Xavier representa a continuidade política do governo
Fátima Bezerra, uma gestão marcada por dificuldades fiscais, conflitos com
setores do funcionalismo e questionamentos sobre a capacidade do estado de
oferecer serviços públicos de qualidade.
Como integrante da equipe econômica do governo, Cadu
participou de decisões que incluem a política de aumento do ICMS, medida que
provocou forte reação de setores produtivos e consumidores. Também carrega o
peso político de uma administração que enfrentou problemas e questionamentos
relacionados aos compromissos financeiros com servidores e à prestação de
serviços essenciais.
Não é razoável que alguém que participou diretamente de
uma gestão seja apresentado como se não tivesse qualquer responsabilidade por
seus resultados. Se pretende governar o RN, Cadu precisa explicar o que faria
de diferente, quais erros reconhece e como pretende corrigir os problemas que
ajudou a administrar.
O eleitor tem o direito de cobrar respostas concretas, e
não apenas promessas de continuidade com uma nova embalagem eleitoral.
Allyson Bezerra: mudança de discurso não basta
Do outro lado está Allyson Bezerra, que construiu sua
trajetória política em Mossoró e agora busca ampliar seu projeto para todo o
estado. Mas administrar um município e governar o Rio Grande do Norte são
desafios de dimensões muito diferentes.
Sua passagem pela Prefeitura de Mossoró também está
sujeita a questionamentos sobre a condução administrativa, as relações com
servidores, a situação dos serviços públicos e denúncias que precisam ser
esclarecidas pelas instâncias competentes.
A Operação Mederi, da Polícia Federal, acrescenta um
elemento de preocupação ao debate público sobre a gestão municipal. Entretanto,
é fundamental distinguir investigações, suspeitas e eventuais acusações de
condenações definitivas. O que se exige de qualquer candidato é transparência,
esclarecimento dos fatos e respeito aos mecanismos de investigação e à Justiça.
Allyson precisa demonstrar que tem mais do que capacidade
eleitoral e habilidade de comunicação. Precisa provar que possui preparo para
conduzir uma máquina pública complexa, enfrentar as dificuldades financeiras do
estado e montar uma equipe técnica capaz de entregar resultados.
O RN não pode trocar um governo desgastado por uma aposta
cujo desempenho estadual ainda precisa ser comprovado.
Um estado sem grandes perspectivas?
O drama potiguar vai muito além da disputa entre dois
candidatos. Está na dificuldade de encontrar um projeto de estado capaz de
superar interesses partidários, disputas pessoais e acordos eleitorais.
Segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, geração
de empregos, atração de investimentos e equilíbrio das contas públicas exigem
planejamento, competência e capacidade de articulação com o governo federal, os
municípios e o setor produtivo.
Não basta ocupar o Palácio de Despachos. É preciso saber
governar. Não basta anunciar obras. É necessário executá-las. Não basta
prometer equilíbrio fiscal. É preciso administrar os recursos públicos com
responsabilidade, transparência e eficiência.
O Rio Grande do Norte precisa de lideranças que tenham
coragem de enfrentar privilégios, cortar desperdícios, qualificar a gestão e
apresentar metas verificáveis. Precisa de alguém capaz de dialogar com
adversários sem transformar a administração pública em instrumento de vingança
política ou de interesses eleitorais.
Infelizmente, a disputa atual não desperta, por si só, a
confiança necessária para alimentar grandes expectativas. Entre a continuidade
de uma gestão contestada e uma alternativa que ainda precisa demonstrar sua
capacidade de governar o estado, o eleitor encontra mais dúvidas do que
certezas.
Vinte anos de frustrações administrativas e políticas
A sucessão de governos também ajuda a explicar o
desencanto da população. Os períodos de Rosalba Ciarlini, Robinson Faria e
Fátima Bezerra deixaram experiências administrativas distintas, mas
alimentaram, em diferentes momentos, críticas, cobranças e frustrações entre os
potiguares.
Somados, foram 16 anos de governos estaduais ao longo de
duas décadas, considerando os quatro anos de Rosalba, os quatro de Robinson e
os oito de Fátima. Se o próximo governo repetir os erros e as insuficiências
que marcaram esse histórico, o estado poderá chegar a 20 anos de oportunidades
perdidas e de dificuldades que se renovam a cada eleição.
Não se trata de afirmar que todos os governos foram
iguais, mas de reconhecer que o resultado acumulado está muito aquém do que a
população espera de um estado com potencial econômico, recursos naturais,
produção agropecuária, turismo, energia renovável e uma população trabalhadora.
O RN não pode continuar refém de projetos políticos que
prometem mudança durante a campanha e, depois da vitória, reproduzem velhas
práticas, improvisações e disputas pelo poder.
O eleitor merece mais do que duas opções
A escolha entre Allyson Bezerra e Cadu Xavier é uma
decisão que cabe ao eleitor. Mas a democracia não obriga ninguém a abandonar o
senso crítico diante das opções apresentadas.
Independentemente de quem vença, o próximo governador
terá de responder por suas escolhas, apresentar resultados e prestar contas à
sociedade. A vitória nas urnas não será um cheque em branco.
O RN não
merece mais quatro anos de improvisação, disputas políticas e expectativas
frustradas. Merece um governo à altura de seus desafios.
Se Allyson ou Cadu não conseguirem demonstrar, na
prática, que estão preparados para essa missão, a mudança de nome no comando do
estado pouco significará para quem continua esperando por saúde de qualidade,
segurança, emprego e oportunidades.
A pergunta final, portanto, não é apenas quem vencerá a
eleição. É se o Rio Grande do Norte continuará elegendo governantes sem
conseguir romper o ciclo de frustrações administrativas que há décadas
compromete seu desenvolvimento.
Porque, quando a política deixa de apresentar soluções, quem paga a conta é o povo. E o povo potiguar já pagou caro demais.

0 comentários:
Postar um comentário