O ex-banqueiro
Daniel Vorcaro se reuniu com o ministro do STF Gilmar Mendes em 11 de abril de
2024 para pedir seu voto favorável a uma questão bilionária envolvendo
precatórios de usinas do setor sucroalcooleiro que ele adquiriu com deságio. A
informação foi divulgada na noite dessa quinta 17, por Monica Bergamo, colunista da Folha.
O interesse de
Vorcaro era usar o valor de face dos precatórios para engordar o balanço do seu
banco. Vorcaro mantinha no Master carteira bilionária em precatórios, que são
títulos de dívidas do governo. Na ocasião, o Supremo discutia a pedido do
governo Lula (PT) a validade de ações indenizatórias que perdeu, em sentenças
transitadas em julgado, e que resultaram na emissão de títulos de dívida cujo
pagamento vinha postergando, até que decidiu oficializar o calote com a
chancela do STF.
Vorcaro também
contratou o ex-senador Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, o Chiquinho
Feitosa (Republicanos), por meio de uma outra empresa, e tratou com Gilmar de
processos no Supremo, inclusive de relatoria do ministro, de quem era cunhado
na época. A informação foi revelada pelo Blog do Fausto Macedo, do Estadão.
As conversas,
extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro entre abril e novembro de
2024, mostram que Feitosa prestava “assessoria” e cobrava andamento de pautas
de interesse do Banco Master. Gilmar Mendes votou contra os interesses do banco
nos dois casos citados. Procurado, o ministro não se manifestou.
Chiquinho
Feitosa é irmão da advogada Guiomar Feitosa, que foi casada com Gilmar até
novembro de 2025. Os diálogos ocorreram enquanto o vínculo familiar ainda
existia.
Contrato
de R$ 500 mil mensais
Inicialmente,
Feitosa negou ter trabalhado para o banco de Vorcaro. Confrontado com o
contrato da Super Empreendimentos — empresa do banqueiro apontada pela PF como
instrumento de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio —, admitiu a
prestação de serviço “durante um curto período”. Disse que, na época, a empresa
era vista como “idônea”.
Mensagens
indicam remuneração de R$ 500 mil líquidos por mês, mais R$ 800 mil extras na
primeira parcela. O operador Leonardo Palhares pediu confirmação a Vorcaro
sobre o contrato; o banqueiro autorizou. A consultoria F&A, de Feitosa,
aparece em lista de pagamentos enviada a Vorcaro.
Precatórios
e vagas de medicina
Os dois temas
tratados nas conversas foram:
Precatórios da
Usina Agroindustrial Tabu (Paraíba), adquiridos por fundos do Master. Gilmar e
outros ministros votaram contra os interesses do banco.
Ação sobre
regras para abertura de cursos de medicina (ADC 81), de relatoria de Gilmar. O
fundo Calêndula, ligado ao Master, financiava a mantenedora da Universidade
Luterana do Brasil. O STF manteve a exigência de chamamento público prevista na
lei do Mais Médicos — resultado que, indiretamente, não favorecia Vorcaro.
Em setembro de
2024, Feitosa prestou contas ao banqueiro sobre “precatórios” e “educação” e
cobrou a assinatura do contrato: “estou 100% dedicado aos nossos
assuntos”.Intermediação de encontroEm abril de 2024, Feitosa encaminhou a
Vorcaro o contato de uma servidora ligada ao gabinete de Gilmar e um roteiro de
reunião: primeiro um encontro a sós com o ministro e, em seguida, a entrada do
diretor jurídico do Master, André Krutchevsky, e do advogado Bruno Bianco
(ex-AGU), contratado para atuar nos precatórios.
O Estadão apurou
que o encontro de Bianco com Gilmar ocorreu. Feitosa relatou a Vorcaro que “a
conversa do Bianco ficou perfeita c o Gilmar”. Depois, enviou decisão do então
presidente do STF, Luís Roberto Barroso, que suspendia o pagamento do
precatório da Usina Tabu.
Feitosa também
mencionou jantar com Gilmar, possível encontro em Londres e reunião marcada com
a irmã Guiomar. Ela afirmou que Vorcaro a procurou por intermédio do irmão, mas
que recusou atuar porque ele não apresentou processos específicos.
O
que dizem os envolvidos
Chiquinho
Feitosa afirmou que não tinha contrato com o Banco Master, só com a Super Empreendimentos;
que não sabia que Bianco atuava para Vorcaro; que não intermediou encontro de
funcionários do banco com Gilmar; e que sugeriu retirar o nome do Master de um
convite de evento “de forma despretensiosa”.
Bruno Bianco
disse que atuou de forma independente, por seu escritório, em discussão
jurídica de interesse de clientes; que não integrou o Master; e que a tese não
foi acolhida pelo STF.Gilmar Mendes não se pronunciou. O espaço permanece
aberto.
0 comentários:
Postar um comentário