Nesta segunda-feira, 27, completou três meses da Operação
Mederi, que desmantelou um esquema criminoso de desvio de recursos públicos da
saúde e fraudes em licitações no âmbito da Prefeitura de Mossoró e outros cinco
municípios da região. A Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU)
descobriram uma estrutura de contratos fraudulentos, sobrepreço e não entrega
de medicamentos contratados, via empresa Dismed Distribuidora.
As investigações apontaram o uso de empresas fictícias
("laranjas"), incluindo a conta bancária de uma menor de idade para
ocultar movimentações financeiras de quase meio milhão de reais. Sete pessoas
investigadas estão sendo monitoradas por uso de tornozeleiras eletrônicas.
O então prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil),
e o atual prefeito Marcos Medeiros Bezerra (Republicanos) foram colocados pela
Polícia Federal no “topo” da estrutura criminosa. O desembargador federal
Rogério Fialho, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), destacou em
sua decisão, que autorizou a operação, que as práticas ilícitas eram
encabeçadas pelo “alto escalão” da gestão municipal.
Allyson, que renunciou à Prefeitura de Mossoró para ser
candidato a governador do Rio Grande do Norte, nega participação no esquema,
afirmando que ele não é alvo da investigação. A Polícia Federal e a CGU mostram
o contrário. O ex-prefeito foi alvo de busca e apreensão. A PF levou
computador, HDs, celulares e outros pertences de Allyson.
No decorrer das investigações, escutas ambientais revelaram
um suposto esquema de propinas que envolveria o ex-prefeito e a empresa DisMed.
Na decisão do desembargador Rogério Filho, aparece trechos de conversas que
apontam Allyson Bezerra como beneficiário de 15% de propina e outra pessoa,
identificada como “Fátima”, que teria recebido 10%.
O prefeito Marcos Bezerra também aparece nas escutas ambientais. Um dos sócios da DisMed sugere que parte dos recursos desviados seriam para bancar campanhas eleitorais. Marcos também foi alvo de busca e a apreensão, assim como o ex-secretário de Saúde, Almir Mariano, e a atual titular da pasta, Morgana Dantas.
Desdobramentos
A Polícia Federal conseguiu abrir os celulares apreendidos
dos investigados e está cruzando as informações. O ex-prefeito Allyson se
recusou a informar a senha dos seus aparelhos, o que dificultou o trabalho da
PF.
A reportagem do Jornal de Fato colheu a informação que as
sete pessoas monitoradas por tornozeleiras eletrônicas ainda não foram ouvidas
em depoimentos, o que deverá ocorrer após a Polícia Federal cruzar as
informações extraídas dos seus celulares.
Nos bastidores da Mederi, é levantada a possibilidade de a Polícia Federal realizar a segunda fase da operação, para verificar novas informações descobertas durante as investigações. O indiciamento dos investigados também é dado como certo.
O que se sabe
sobre a Operação Mederi
1 – Uma estrutura criminosa foi formada para desviar recursos
da saúde pública por meio de contratos fraudulentos com as empresas DisMed
Distribuidora de Medicamentos e Drogaria Mais Saúde, que têm como sócios os
investigados Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares.
2 – No curso das investigações foi descoberta o que a PF
chama de “Matemática de Mossoró”, que é a forma como os recursos desviados eram
distribuídos. Diálogos interceptados pela PF revelam que Allyson Bezerra
receberia 15% de propina e uma pessoa identificada como “Fátima” ficava com
10%.
3 – O vice-prefeito Marcos Bezerra (hoje prefeito) também é colocado
pela PF no topo da estrutura criminosa. Os investigadores afirmam, com base nos
áudios interceptados, que o dinheiro da propina seria para campanha eleitoral
de Allyson Bezerra e futura campanha eleitoral de Marcos Bezerra.
4 – Almir Mariano, ex-secretário da Saúde e atual titular da
Secretaria de Programas e Projetos da gestão Allyson Bezerra, é apontado pela
PF como responsável pelas condições institucionais para o funcionamento do
esquema criminoso. Em sua casa, a Polícia Federal encontrou dinheiro
distribuído em pertences, mochilas e gavetas que somaram R$ 57.500,00.
5 – Atual secretária de Saúde, Morgana Dantas, segundo a PF,
teria atuado no nível intermediário, garantindo as condições institucionais
para o funcionamento do esquema.
6 - A Polícia Federal identificou uma conta ‘laranja’, em
nome de uma estudante menor de idade, usada pelos operadores do esquema
criminoso. Uma filha de Oseas Monthalggan e Roberta Ferreira Praxedes da Costa
- mulher do sócio da DisMed e proprietária da Drogaria Mais Saúde, teve a conta
bancária utilizada pelos pais para lavar dinheiro do esquema, segundo a
investigação. Ela recebeu R$ 427 mil entre julho de 2022 e junho de 2023.
7 – As investigações apontam que o esquema movimentou R$ 13,5
milhões pagos a uma empresa fornecedora de medicamentos que, segundo a Polícia
Federal, repassava vultosas propinas ao prefeito de Mossoró.
8 – Considerando esse percentual e o valor total dos
pagamentos executados pela Prefeitura de Mossoró, beneficiando a DisMed entre
2022 e 2025, Allyson Bezerra pode ter recebido mais de R$ 2,2 milhões em
propina da empresa investigada.
9 – A Polícia Federal descobriu grande volume de aquisição de
medicamentos utilizados no tratamento da hipertensão arterial. Só no exercício
de 2025, a gestão Allyson Bezerra adquiriu aproximadamente 8 milhões de
comprimidos de medicamentos para hipertensão, junto às empresas investigadas.
Jornal de Fato
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