A Justiça Eleitoral do RN determinou ontem, em decisão
liminar, a retirada do ar dos resultados da pesquisa Média/O Potengi, sob a alegação
de que houve formulação tendenciosa de perguntas com o objetivo de prejudicar o
pré-candidato Allyson Bezerra. A pesquisa havia sido divulgada no último dia 29
de março. A decisão foi proferida pelo juiz relator Daniel Cabral Mariz Maia.
Ao analisar uma ação do Partido Republicanos, o magistrado apontou que a
pesquisa incluiu perguntas específicas relacionadas a denúncias e a uma
operação da Polícia Federal associadas ao pré-candidato. Segundo a decisão, não
houve questionamentos semelhantes em relação a outros nomes.
O juiz destacou que essas perguntas indicam possível indução de respostas
desfavoráveis. Na prática, a pesquisa teria apresentado aos entrevistados um
conteúdo potencialmente desabonador direcionado exclusivamente a Allyson, o
que, em tese, comprometeria a neutralidade do levantamento.
Objetivamente, a contestação da pesquisa se concentra em duas perguntas:
Minha opinião é de completa discordância da decisão judicial. As duas
perguntas tratam de temas de amplo conhecimento público e buscam compreender a
percepção do eleitor sobre esses fatos — algo plenamente pertinente em
pesquisas desse tipo. Até porque se trata de um levantamento mais amplo, com um
total de 27 perguntas.
Quando se realiza uma pesquisa, o objetivo é justamente entender o que os
entrevistados pensam sobre determinados assuntos: sua percepção sobre
candidatos, a imagem que constroem sobre os nomes e suas propostas, além de
como se posicionam diante de temas do cotidiano e de questões polêmicas. É com
base nessas informações que campanhas estruturam suas estratégias de
comunicação.
Em uma rápida consulta a pesquisas recentes de grandes institutos sobre
temas sensíveis — e, por vezes, potencialmente desabonadores — encontramos
diversos exemplos. O Datafolha, por exemplo, questionou eleitores sobre a
responsabilidade de Bolsonaro na tentativa de golpe. A Quaest investigou se o
eleitor votaria em um candidato que defendesse anistia aos condenados. A Paraná
Pesquisas perguntou se Bolsonaro tentou dar um golpe. O Ipespe também abordou
se o ex-presidente esteve envolvido nesses acontecimentos.
Ou seja, se aplicada a tese de que perguntas que abordam fatos
potencialmente negativos inviabilizam a divulgação de pesquisas, teríamos uma
infinidade de levantamentos retirados do ar.
Concordaria integralmente com a decisão caso as perguntas tratassem de
fatos comprovadamente falsos ou de denúncias inexistentes. No entanto, não é
esse o caso. Trata-se de fatos públicos, amplamente divulgados, e as perguntas
não afirmam culpa ou inocência — apenas investigam o nível de conhecimento do
entrevistado e a percepção que ele constrói sobre esses acontecimentos.
Se prevalecer o entendimento de que qualquer pergunta que remeta a fatos
negativos — ainda que reais e de interesse público — pode comprometer uma
pesquisa, corremos o risco de assistir a uma avalanche de levantamentos
censurados em todo o Brasil.
Neto Queiroz
0 comentários:
Postar um comentário